Negra

Dia Nacional da Consciência Negra: algo para comemorar?

Enquanto você lê este artigo, nos próximos 23 minutos uma vida negra, de 15 a 29 anos de idade, deixará de existir. A cada duas horas, cinco vidas negras. No Brasil, sete em cada 10 pessoas assassinadas são negras. São marcas trágicas deixadas pelo processo de colonização do País que permanecem diante dos olhos de todos no cotidiano. Que muitos se recusam a ver, enquanto outros tantos se mostram indiferentes.

As desigualdades sociais no Brasil estão escancaradas, são gritantes e perversas. E se multiplicam em proporção geométrica quando se enfoca o aspecto racial. Seja nas estatísticas de jovens assassinados ou nas do desemprego. A morte de pessoas negras cresce a cada novo levantamento. De 2005 a 2015, por exemplo, a taxa de homicídios por 100 mil habitantes aumentou 18,2%. Entre os não-negros houve uma redução de 12%. Um problema invisível para os políticos e o Judiciário?

Com relação à questão econômica, sugiro a leitura desta matéria de Vinícius Neder, publicada no Estadão Conteúdo da última sexta-feira, dia 17.11.2017: “Desemprego da população preta ou parda é de 14,6%, acima da média” – https://exame.abril.com.br/brasil/desemprego-da-populacao-preta-ou-parda-e-de-146-acima-da-media/.

Se os desassistidos de uma maneira geral clamam por políticas públicas, entre a população negra os reclamos alcançam índices assustadores, como resultado impactante das restrições ao exercício de sua cidadania.

Quando se comemora o Dia Nacional da Consciência Negra, a Imprensa traz a público a velha notícia das injustiças e violências contra o Negro, desnudando o racismo latente que está incrustado na alma do brasileiro. Então, velhas promessas são arquitetadas, com o anúncio de projetos e planos mirabolantes para combater e enfrentar a discriminação. A falácia chancelada oficialmente, enquanto na realidade atroz do asfalto mais um jovem negro sucumbe vítima de uma bala perdida. Perdida?

São assassinatos que, ao contrário da morte de um branco, chocam e sensibilizam muito menos. Coisa antiga isso. Não me causa espanto algum ler sobre a pesquisa realizada pela Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) e pelo Senado Federal, revelando que 56% da população brasileira concorda com a afirmação de que “a morte violenta de um jovem negro choca menos a sociedade do que a morte de um jovem branco”.

É importante, sim, o lançamento da campanha nacional “Vidas Negras” pelo Sistema ONU Brasil. Todavia, penso que é preciso ir além dos discursos e dos releases oficiais do governo. É bonito saber que esta “é uma reafirmação do compromisso de implementação da Década Internacional de Afrodescendentes“. Porém, é preciso ir além das ações anunciadas no Mês da Consciência Negra de 2017.

A mim me parece que a questão crucial é a mesma de sempre: a necessidade urgente de se colocar em prática tudo aquilo que é proclamado como resoluções para acabar com a discriminação e a violência. Os problemas, todo mundo conhece de longa data. São visíveis, mas para quem tem o poder de minorá-los parecem invisíveis. É importante que os movimentos sociais exerçam sempre seu poder de pressão, mas nada mudará enquanto políticas sérias e rígidas não forem colocadas em ação como lei a ser cumprida para superar as desigualdades. É preciso que Estado, o sistema de Justiça e a sociedade estejam realmente empenhados nesta luta.

A seguir assim, as manchetes e as estatísticas não serão muito diferentes.

Geraldo Muanis – Jornalista

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